[Última atualização em 07/03/2019]

Antes do lançamento mundial de “Fogo & Sangue – Volume 1” em 20 de novembro do ano passado, já circulavam pela internet trechos do livro, inclusive alguns traduzidos em espanhol, russo e dinamarquês (na verdade, neste último caso, eram vários trechos no diretório de livros do Google).

Como os trechos traduzidos não partiam do mesmo texto, mas de seções diferentes do livro, os leitores daquelas nacionalidades se esforçaram para traduzir o texto de volta para o inglês, a fim de que fãs ao redor do mundo pudessem ter acesso ao conteúdo e se divertissem com debates enquanto o livro não era lançado.

Ocorre que, com a tradução informal, os leitores começaram a notar que os textos lançados em outras línguas, especificamente o trecho lançado em russo, continha informações contraditórias. Foi nesse momento que, em um tópico no fórum do site Westeros.org, comentando o trecho em russo, Elio Garcia explicou que algumas traduções não partiram da versão final de Fire & Blood.

De fato, Garcia disse que os prazos para lançamento simultâneo com a edição inglesa fizeram com que as traduções fossem realizadas sobre rascunhos, e não sobre o texto final, como foi publicado nos EUA (e, talvez, no Reino Unido). Nas palavras de Elio (tradução nossa):

“Por conta da pressão em ter o livro lançado ao mesmo tempo que a edição em inglês, às vezes os tradutores tiveram que trabalhar sobre rascunhos anteriores. Correções que foram feitas no texto em inglês não necessariamente foram repassadas às editoras estrangeiras, que por sua vez não tiveram como passar as modificações aos tradutores, especialmente se eles estivessem atrasados.

[…] Alguém poderia pensar que há uma versão “mestra” a que todos os licenciados têm acesso, pontuando todas as alterações, e coisas do tipo, mas… não há.”

Conforme lia a versão brasileira, me perguntava se a Editora Suma teria sido uma das contempladas com a versão final do texto, ou se havia recebido apenas rascunhos. Contudo, uma vez que Regiane Winarski e Leonardo Alves afirmaram que tiveram aproximadamente um mês para terminar a tradução, e que havia trechos prontos em 28 de setembro, é de se assumir que, a partir de Outubro, a Companhia das Letras não teve acesso a qualquer alteração realizadas sobre o texto original.

Durante a leitura do livro, não logrei notar nenhuma discrepância significativa com as informações que vi em fóruns pela internet. Porém, ao trabalhar em minhas anotações sobre o livro, uma informação que contradizia algo há muito estabelecido nos livros me levou a fazer uma pesquisa mais profunda.

Consta da página 370 de “Fogo & Sangue” que Jacaerys Velaryon poderia ser legalmente considerado um homem feito aos 15 anos de idade. Reproduzimos abaixo o parágrafo completo (grifos nossos):

“Aegon, o jovem, e Viserys, filhos do princípe Daemon, tinham nove e sete anos, respectivamente. O príncipe Joffrey tinha apenas onze anos… mas Jacaerys, Príncipe de Pedra do Dragão, estava à beira do décimo quinto dia de seu nome, quando segundo todas as leis de Westeros ele se tornaria um homem-feito.”

Uma vez que em todos os livros da série é dito que os homens chegam a maturidade aos 16 anos, não pude de deixar de verificar o original em inglês.

Minha suspeita inicial era que Martin estaria estabelecendo que, à época da Dança dos Dragões, as leis de Westeros previam a idade de 15 anos, mas que isso foi alterado mais tarde, como veríamos no Volume 2 do Livro. O fundamento de minha suspeita era o fato de que, neste mesmo livro, Martin tratou de várias leis de Westeros pela primeira vez (como a “lei da viúva”, regra do polegar e “regra de seis”).

Entretanto, não era o caso. O texto em inglês não faz menção à passagem sublinhada na citação acima, que provavelmente foi removida do original. Vejamos como ficou na versão americana:

“Aegon the Younger and Viserys, Prince Daemon’s sons, were nine and seven, respectively. Prince Joffrey was but eleven… but Jacaerys, Prince of Dragonstone, was on the cusp of his fifteenth nameday.”

Após verificar esse erro, tive a ideia de verificar se o erro que foi achado na edição russa do livro não constaria da brasileira. O problema envolve a cronologia da chegada de Grande Meistre Clegg à Porto Real, que, segundo a edição russa, teria acontecido 20 anos após o término da Primeira Guerra Dornesa (que durou de 4-13 DC). Contudo, em 33 DC o Grande Meistre da corte era outro (Gawen).

De fato, o erro está presente também na edição brasileira (pág. 40, grifos nossos):

“O Grande Meistre Clegg, que foi a Porto Real vinte anos depois, concluiu que Dorne já não tinha mais forças para lutar. […]”

Enquanto que, na versão inglesa, assim constou (grifos nossos):

“Grand Maester Clegg, who came to King’s Landing many years later, concluded that Dorne no longer had the strength to fight. […]”

Portanto, não sabemos o que mais no livro pode estar em desacordo. Estes erros que apontei só foram encontrados porque entram em contradição com outras informações que temos. Mas será muito trabalhoso verificar se todas as informações inéditas (que não entrem em conflito com o conteúdo dos demais livros) estão de acordo com o texto em inglês.

Por fim, não sei dizer se esses problemas podem ser imputados à Editora Suma (Companhia das Letras) ou não. Dependeria de saber se este fluxo de trabalho foi imposto pelos editores de Martin a todas as editoras que se propuseram a fazer parte do lançamento simultâneo. No entanto, o que parece bastante claro é que os tradutores não têm responsabilidade alguma.

De todo modo, não deixo de estar decepcionado. Primeiro, a Amazon atrasa a entrega do livro que comprei na pré-venda 2 meses antes do lançamento. Agora, confirmo que não tenho comigo sequer a tradução do texto efetivamente publicado nos Estados Unidos.

#TrustIssues