Neste artigo continuarei a tratar do livro “Atlas das Terras de Gelo e Fogo”.

Caso não tenha lido as partes anteriores deste artigo, basta clicar nos links a seguir: Parte 1, Parte 2, Parte 3.

 

(Legenda: AGOT = Livro 1, A Game Of Thrones; ACOK = Livro 2, A Clash Of Kings; TWOIAF = o Compêndio, The World of Ice and Fire; APP = Aplicativo para Smartphone, George R. R. Martin’s A World of Ice and Fire; GRRM = o autor, George R. R. Martin)


1. O Oriente

As terras entre Asshai e Qarth são o maior atrativo de “Atlas das Terras de Gelo e Fogo”. Não há maior concentração de material inédito em nenhuma outra região do Mundo Conhecido. “O Oriente” é um dos mapas mais comentados do livro, apesar de que poucas das terras ali retratadas tiveram mais de um parágrafo no compêndio de meistre Yandel (“O Mundo de Gelo e Fogo”). Algumas sequer foram mencionadas.

Como já foi dito anteriormente, a cartografia do Atlas é feita com as informações que a Cidadela tem sobre o mundo. No tocante a Essos, as informações vão perdendo a precisão conforme se avança para o Leste, a tal ponto que nomes, distâncias e até cores se tornam quase metafóricas. Portanto, o Oriente é a terra da especulação…. dentro e fora do universo de gelo e fogo.

“Eu gosto de mistérios. Eu gosto de coisas não explicadas. Para mim torna o mundo mais rico, o torna mais legal” – George R. R. Martin

Comecemos a análise pela regiões vizinhas à cadeia de montanhas chamada “Ossos”. Se é correta a suposição que fiz de que ela corresponde à soma das maiores cordilheiras que dividem a Ásia central, então, no contexto do mundo de Martin, o Deserto Vermelho seria um paralelo do planalto iraniano, enquanto que Yi Ti corresponderia à China.

Como visto anteriormente, Martin abandonou a visão dos Portões de Jade como um paralelo dos estreitos de Dardanelos e Bósforo. Assim, as terras que surgiram ao Sul de Qarth – na outra margem do Portões – são algo que não existe na Ásia dos dias de hoje.

Martin já comparou Essos à Eurasia, o supercontinente que engloba Ásia, Europa e Oriente Médio. Ocorre que, geologicamente, a placa tectônica Eurasiática não contempla a região da Índia, que pertence a um subcontinente independente. Na minha opinião, a inspiração para Grande Moraq e Lesser Moraq são justamente a Índia e o Sri Lanka, mas na configuração que essas massas de terra tinham há mais de 10 milhões anos atrás.

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Há mais de 10 milhões de anos, a Índia não fazia parte da Ásia.

Duas outras pistas demonstram definitivamente o paralelismo proposto.

Primeiro: a cidade de Faros é conhecida por adorar uma vaca de pedra (ACOK, Daenerys III). A correlação com o hinduísmo é clara, pois é de conhecimento geral que esta religião exalta a pureza dos bovinos e proíbe o consumo de carne. É verdade que o status divino da vaca não é um consenso no hinduísmo. Porém, em Grande Moraq, apenas os habitantes de Faros são conhecidos por adorar a vaca de pedra. Então o paralelismo se mantém.

Segundo: o Cinnamon Straits (sem tradução; em português “Estreito de Canela”) é assim chamado porque as ilhas da região são conhecidas pela produção de canela (APP, Cinnamon Straits). No mundo real, o Sri Lanka é o berço da canela-do-Ceilão, e até os dias de hoje é seu principal produtor e exportador.

Estando assim demonstrados, os paralelos tornam a geografia da região inédita ainda mais interessante. Mais importante: como a geografia do Deserto Vermelho já havia sido estabelecida em “Fúria dos Reis”, a escolha de uma ilha como a margem oposta dos Portões de Jade permitiu a Martin ter liberdade criativa sem necessidade de retificação do cânone.

No entanto, se a reformulação não causou problemas à geografia física da região, o mesmo não ocorreu com a geografia humana, pois logo começaram a surgir várias dúvidas em relação à economia e geopolítica de Qarth.

Com efeito, a criação de uma segunda passagem para o Mar de Jade suscitou debates sobre a importância comercial dos Portões de Jade. Uma vez que o Cinnamon Straits dava aos navios um rota alternativa pelo sul de Grande Moraq, dificilmente poder-se-ia alegar que Qarth seria “o portão entre o Norte e o Sul, a ponte entre o Leste e o Oeste” (ACOK, Daenerys II).

QarthEstreitos
Portões de Jade e Cinnamon Straits, passagens para o Mar de Jade (à leste).

De fato, esse embate foi travado durante o lançamento do Atlas nos EUA. Um dos principais complicadores era que já se havia estabelecido existir um tipo de circuito comercial no Mar de Jade, chamado de “volta do mercador”, ou trader’s circle, no original (ACOK, Daenerys II).

Esse circuito fazia perfeito sentido na cartografia anterior – em que Qarth era um paralelo para Constantinopla e o Mar de Jade parecia ser um mar interior. Contudo, nos mapas do Atlas a situação ficou muito irreal, mesmo diante da possibilidade de que os Qartenos estivessem inflando a própria importância. Era como se George não tivesse levado a questão comercial em consideração enquanto reformulava esta região.

À época, Elio Garcia especulou o seguinte sobre este assunto:

Nunca foi dito que Qarth era o único caminho para o Mar de Jade, mas com certeza é o caminho mais conveniente para Yi Ti. Tudo se resume à análise de custo-benefício sobre a percurso rápido e as tarifas altas de Qarth serem preferíveis a um percurso lento e tarifas não tão altas. […] Outra possibilidade é que os ventos soprem predominantemente para leste em Qarth, de forma que os Portões de Jade sejam mais atrativos, e “volta do mercador” pode sugerir que os ventos circulam ao longo da costa de Essos, curvando-se para Asshai antes de começarem a dar a volta. Ao sul de Grande Moraq, o vento pode soprar predominantemente para oeste ou sudoeste, o que sugeriria que Faros e Port Moraq são parte da via de regresso da volta do mercador, ao invés de serem vistas como uma rota alternativa para Yi Ti.

O assunto também foi levado a GRRM, na seção de comentários de seu blog. Naquela ocasião, o autor explicou que os Portões de Jade eram importantes porque eram o caminho mais fácil (e reto) para se chegar às cidades portuárias em Yi Ti e Leng, os centro comerciais mais importantes do Mar de Jade.

Assim, ninguém ficou surpreso quando as explicações de Elio e George foram posteriormente canonizadas (APP, Port Moraq; APP, Great Moraq). Diante disso, senti a necessidade de elaborar um esquema de ventos (bem amador) para o mundo de gelo e fogo, a fim de analisar como rotas que parecem óbvias podem ser inconvenientes.

A imagem a seguir foi produzida com base nas informações que temos sobre rotas marítimas, ventos predominantes, tempestades e cadeia de montanhas presentes nos livros e mapas. As linhas de latitudes utilizada foram as estimadas por Werthead (com o “equador” próximo a Asshai).

VentosMundo
Esquema de ventos. Ventos predominantes tornam Qarth mais atraente e o Cinnamon Straits menos atraente.

Deixando o Mar de Jade de lado por enquanto, e voltando ao continente, podemos ver novas referências despontando a leste dos Ossos. Quem fizer a travessia oeste-leste da cordilheira pelas rotas principais sem demora irá se deparar com o “Grande Deserto de Areia”, um cânion árido e colossal com milhares de quilômetros de extensão.

No mundo real, os viajantes da Rota da Seda estavam sujeitos aos mesmos tipos de obstáculos. Após transporem algumas das maiores cadeias de montanhas do mundo na Ásia Central, os viajantes encontrariam os caniôns e ravinas mais profundos do mundo, bem como os imensos desertos de Taklamakan e Gobi. Todas essas referências geográficas parecem ter sido usadas como inspiração para o Grande Deserto de Areia.

Em “O Mundo de Gelo e Fogo”, ficamos sabendo que existe uma Rota da Seda em Essos (TWOIAF, Os Ossos e Além), mas ela é uma estrada diminuta e obsoleta. Tal qual a verdadeira Rota da Seda, a estrada para o oriente em Essos é, na verdade, uma rede de estradas individuais.

As quatro maiores (e principais) são a estrada do aço, a estrada da pedra, a estrada de areia e uma rota sem nome que vai de Qarth à Yin pelo litoral. Entretanto, as estradas não são as únicas mimetizações do mundo real: as próprias cidades no caminho fazem alegorias a entrocamentos importantes da Rota da Seda durante a Idade Média.

Bayasabhad parece um acrônimo de Abbāsīyyah, expressão que designa o Califado Abássida que dominava a Arábia, norte da África e planalto iraniano durante o Séc. XIII (ao mesmo tempo que soa como o nome da capital do Califado à época, Bagdá). Samyriana, localizada no Caminho de Pedra, parece uma referência à Samarcanda, cujo nome significa “forte de pedra” ou “cidade de pedra” em sogdiano. Por sua vez, as muralhas de Kayakayanaya serem feitas de basalto negro, ferro negro e ossos amarelos parece indicar uma inspiração em Karasahr, cujo nome significa “cidade preta” em turco.

Depois de passar por essas cidades, as rotas seguem para a nação oriental Yi Ti. Nesta parte do mapa, não fui capaz de assimilar qualquer correspondência entre os nomes das cidades fictícias com locais no mundo real. É muito conhecido o paralelo de Yi Ti com a China e de Leng com o Japão. Contudo, considerados em si mesmos, os nomes não me indicaram significados inequívocos.

Não obstante, quando resolvi contrastar o Império Dourado com Jogos Nhai, algumas simetrias me levaram a conclusões interessantes. A expressão Yi Ti, quando é pronuciado yī tǐ (forma romanizada de 一體) em Mandarin significa “um único corpo”, um princípio de unidade espiritual que é empregado tanto em correntes religiosas quanto em artes marciais chinesas.

Acaso Martin tivesse escolhido o nome do Império Dourado com base apenas nisso, eu julgaria que as referência à China medieval estariam de bom tamanho. Contudo, as possibilidades não se encerram aqui.

As alusões à cultura de cavaleiros selvagens de Jogos Nhai em oposição à sofisticada civilização comercial de Yi Ti me levaram a crer que GRRM quis, com esses povos, replicar as relações dos Chineses com seus vizinhos da estepe mongol. E isto nos leva a mais um possível significado do nome da nação dourada.

Na antiguidade, os chineses cunharam o preceito da distinção entre Hua e Yi (Huá Yí zhī biàn, ou 華夷之辨), como uma forma de estabelecerem fronteiras culturais entre eles (Huá) e seus vizinhos bárbaros (Yi), dentre os quais especialmente o povo Xiongnu. Incidentalmente, foi aí que me ocorreu um palpite para a origem do nome “Jogos Nhai”: uma corruptela de Xiongnu Hua-yi.

Se este for realmente o caso, vale ressaltar uma curiosidade: o  (romanização de 夷) em “Huá Yí” era o nome pelo qual os chineses identificavam aqueles que consideravam bárbaros, mas que aqui está designando um povo inspirado nos chineses. Não sei se isso ofenderia um leitor chinês, mas com certeza seria um jogo de palavras capcioso.

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“Chineses e estrangeiros são partes do mesmo todo”. Palavras do Imperador Yongle, da China, a Ashikaga Yoshimitsu, Shōgun japonês.

Sendo mais literal agora, entre Jogos Nhai e Yi Ti encontra-se o Shrinking Sea (sem tradução; em português, “Mar Minguante” ou “Mar Retrocedente”). Este mar em processo de desertificação é uma clara analogia ao Mar de Aral, na Ásia Central, haja vista que o Aral hoje está reduzido a aproximadamente 10% da sua extensão original.

O mais curioso neste paralelo é que o Mar de Aral somente começou a encolher no séc. XX e por ação do homem. Portanto, se Martin quisesse usar a forma medieval deste corpo d’água como paralelo, o mar teria que estar abundantemente irrigado e cheio. Porém, não dá para saber o que Martin quis com esta representação, afinal, Shrinking Sea não é citado em nenhum dos livros (nem mesmo “O Mundo de Gelo e Fogo”).

Coincidentemente ou não, tudo a leste disto perde referências no mundo real. Embora muitos apostem que Mossovy foi concebida com inspiração na Moscóvia, há pouca evidência que sustente essa alegação. Em longitudes tão distantes de Westeros, os relatos são fabulosos demais (mesmo para o mundo fantástico de Martin). Assim, paralelos com o mundo real dão lugar a referências literárias que Martin faz aos seus escritores favoritos (notadamente a H. P. Lovecraft).

Como esse tipo de análise foge ao objetivo deste artigo, não as listarei ou especularei sobre esses lugares ou seus nomes. Voltarei minha atenção ao Mar de Jade, direto ao coração da fera: Asshai e as Terras da Sombra.

As cordilheiras da península da Sombra são de imponência ímpar no Mundo Conhecido. Nenhuma outra parte do mundo tem uma concentração de relevos tão impressionantes e de vales tão trevosos e místicos. Esta magnificência, porém, é intencional.

Já foi dito que conforme se avança ao leste, diminui a quantidade de informação confiável disponível sobre determinada localidade. Asshai é a reafirmação desta regra. Como observa Jonathan Roberts:

Os detalhes decrescem conforme você segue para o leste. Mas, não apenas isso,  muitas coisas… as diversas terras são representadas bem literalmente […]. As sombras foram de ‘um pouco sombrias’ para ‘quase totalmente’. Nós temos algo como uma floresta roxo escuro no canto inferior direito em Ulthos. Nada disso foi pensado para ser literal. Foi pensado para refletir um entendimento sobre o mundo.

Em seu blog, como parte de uma estratégia de autopromoção suave, Roberts até se permitiu avançar um pouco no campo da especulação:

O terreno [do Oriente] é épico – construído em uma escala maior do que o Ocidente. Talvez este seja o resultado natural do exagero de viajantes […].

Portanto, mesmo o que se vê na península das Sombras é resultado de informações duvidosas e não pode ser tratado como um mapa preciso. De fato, as cordilheiras podem ser menos fantásticas do que aquelas representadas no mapa. A escuridão que cobre a Terra das Sombras pode ter uma origem banal (mas nunca corretamente estudada). Então, infelizmente, o que se vê não é o que é.

Ulthos e Ulos sofrem do mesmo mal. Suas selvas roxo escuro denotam a mesma inospitalidade das Terras das Sombras, mas os mapas sequer nos revelam os contornos da terra incógnita. Muito se discute, dentro e fora do universo, se este novo território seria um continente ou apenas um ilha, sem que se chegue a conclusão alguma.

Como afirmou um usuário no Forum of Ice and Fire, “Ulthos” parece uma clara alusão a Ultima Thule, uma terra lendária do imaginário medieval que se encontrava além do que é cartograficamente conhecido. Em suas análise do Atlas, Werthead especula que ventos prevalecentes devem dificultar a exploração da porção sul do Mar de Jade e a travessia do Estreito de Açafrão (vide esquema de ventos acima). Isso explicaria a falta de informações sobre o resto de Ulthos.

Outro detalhe interessante demonstra que muito foi feito para dificultar a exploração destas terras. As florestas de Ulthos e de Mossovy não existiam até a colorização final. Na segunda versão do mapa, a fauna de todo o mundo conhecido já havia sido mais ou menos estabelecida, mas essas regiões permaneciam calvas. Me parece que essas alterações foram um modo achado por Martin para tornar essas áreas mais difíceis de atravessar e explorar, e justificar sua inospitalidade.

mossovyulthos
Mossovy ganha florestas verde-escuro (acima); roxo-escuro em Ulthos (abaixo).

Entretanto, a ausência de informações sobre a ilha Ulos é a que mais me intriga. Uma das poucas discrições sobre a ilha afirma que ela é montanhosa (APP, Ulos), mas a cartografia westerosi indica a existência de uma cidade arruinada na ilha. Em nenhum livro ficamos sabendo o nome desta ruína. Por que o segredo, se nunca a veremos na saga principal? Vai saber…

Quanto a erros, em “O Oriente” – assim como em “Essos Central” – as estrelas usadas por Roberts como marcação provisória de cidades e ruínas são visíveis por debaixo dos ícones tradicionais. Os demais erros (como a falta de tradução de certos nomes) foram apontados na segunda parte deste artigo.

Por fim, após analisar as possíveis referências neste mapa, me veio a lembrança de que essa foi a região do mundo de Martin que mais sofreu reformulações. Martin já chamou de “páginas em branco” os mapas anteriores do Oriente, porém nomes como Yi Ti, Jogos Nhai e Kayakayanaya foram apresentados logo no primeiro livro da saga (AGOT, Daenerys IV). Portanto, este lugares já deveriam estar contemplados nestas “páginas em branco”.

Assim, fico me perguntando qual era o aspecto geral do Oriente nesses mapas. Que formato tinham Yi Ti e Asshai? Ulthos e o Deserto Cinzento já existiam? E os Cinco Fortes? Perguntas que dificilmente terão resposta.

 

Na quinta parte deste artigo continuarei a tratar sobre os mapas de “Atlas das Terras de Gelo e Fogo”.